As artes visuais como resistência às imagens de consumo

Sai cheia de questões na cabeça após assistir um belo diálogo entre o artista Jaime Prades e a curadora Ana Avelar no Youtube. O tema central da conversa foi a exposição individual de Prades, intitulada Sopro, que está em cartaz na galeria Andrea Rehder Arte Contemporânea, em São Paulo. Foi de fato um sopro de ideias em minha cabeça, tanto por conhecer mais da obra, história e referências de Jaime Prades, quanto pelos temas elencados a partir do diálogo entre curadora e artista. A conversa na íntegra pode ser vista no vídeo:

Em certo momento do diálogo, a curadora Ana Avelar falou sobre como as obras de Jaime, em especial as que estão na exposição, têm um potencial sublime, nos arrebatam, pedem contemplação. O incomodo logo apareceu, qual o lugar do sublime em um mundo tão digital?

Para mim, principalmente após ouvir Avelar e Prades, parece que as artes visuais têm um importante papel no mundo contemporâneo, que é de serem uma alternativa, quase resistência, às imagens de consumo, que são a grande maioria das imagens disponibilizadas nas redes sociais e mesmo nas mídias tradicionais.

Em nosso cotidiano mediado pelas telas digitais, as imagens são cada vez mais efêmeras, além disso, precisam ser ativas, atrair o olhar em questão de segundos para uma mensagem. Nesse contexto, dificilmente há conexão entre o mundo de quem produz a imagem e o mundo de quem a olha.

Já a imagem nas artes visuais busca outro olhar, um olhar contemplativo. Um olhar que não solicita ação, mas sim reflexão, um olhar interior que para o filósofo grego Plotino, torna a arte uma ação espiritual e contemplativa, como destaca Benedito Nunes:

“Se as coisas belas se parecem com a alma, é na própria alma que a beleza melhor se revela. Será preciso então fechar os olhos do corpo para abrir a visão interior, que pode alcançar, afinal, a beleza inteligível, já pertencente às ideias, às formas puras e imateriais”*

Pintura, Jaime Prades. Disponível em Mapa das Artes

A obra de Jaime nos solicita o olhar contemplativo, pois não são imagens mensagem, mas sim imagens símbolo. Como destaca o próprio artista, são imagens que buscam conectar realidades, que rasgam a imagem de consumo para promoverem outros olhares, diálogos e possibilidades.

Os símbolos na obra de Jaime não são dados, mas sim sugeridos, nascem de uma tradição intuitiva, universal e humana. Citando mais uma vez Nunes, é o universal da arte que dá a ela esse poder de criar mundos, sensibilizar e unir:

“a Arte goza […] de universalidade estética: está à disposição de quem pode fazer dela, como diria Kant, um objeto de satisfação desinteressado e universal, isto é, acessível a todas as consciências receptivas”**

Uma pena que eu esteja em Brasília e não possa visitar a exposição em São Paulo, mas é com grande felicidade que sinto ainda a necessidade de comtemplar uma exposição. O digital fez sua parte, atraiu meu olhar e atenção para um tema, e nesse caso um tema muito interessante, mas a contemplação, essa eu vou precisar aguardar para viver.

De toda forma, a aproximação digital, principalmente o diálogo informal entre e Ana e Jaime, abriu meus olhos para a relevância das artes visuais, em especial da pintura, que sempre que parece sem sentido, reaparece com nova importância e relevância.

O sensível nunca morre, busca sempre formas de se mostrar, assim como o dourado que, por um rasgo, se fez presente de forma tão plena na produção de Jaime Prades.

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* Introdução à Filosofia da Arte| Benetido Nunes| Edições Loyola — 2016| Pg. 30

** Introdução à Filosofia da Arte| Benetido Nunes| Edições Loyola — 2016| Pg. 66

Jornalista brasiliense, estudando para ser historiadora da arte! Espaço para minhas divagações, lamentações e reflexões.

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